Adeus 2025.

Mais um dia vazio, não somente na casa, mas em mim. Eu ainda não assimilei a maioria das coisas que escutei, por isso não sinto nada. Nem raiva, nem tristeza, nem rancor.


As pessoas estão com raiva de mim porque eu falei que sou sozinho e que não tenho ninguém. Mas o engraçado é que, quando mando mensagem, por mais besta que for, ninguém me responde. E, se eu não mando mensagem, não recebo nenhuma de ninguém. Se isso não é solidão, então o que é?


A única maneira que encontrei de me expressar foi escrevendo, e até isso foi invalidado, porque eu estava sempre falando o quanto sou sozinho, e isso estava magoando as pessoas. Mas pergunta se elas me mandaram mensagem? Ou, quando mandei, alguma respondeu? A resposta é não.
Parece que tudo o que faço é errado. Se peço ajuda, estou me vitimizando; se não peço, estou escolhendo ser solitário. Não importa o que eu faça, as minhas atitudes sempre são julgadas.


Não basta a minha mente me maltratando, não basta o vazio me maltratando; as pessoas insistem em foder o fodido.


As pessoas não têm ideia do que é lidar com a depressão. Se tivessem, teriam mais empatia e menos julgamentos.


Eu não posso falar que sou solitário, mesmo olhando à minha volta e não tendo ninguém. Mesmo pegando meu celular de cinco em cinco minutos e não tendo nenhuma mensagem. Mesmo pedindo socorro e acolhimento de todas as formas, e as pessoas acham que se trata de uma ajuda financeira ou algo do tipo. Mas a amizade, o acolhimento, o abraço, o “você está bem”, ficam aonde?


Hoje eu decidi que, assim como nasci sozinho, vou morrer sozinho. Que não importa o que eu sinta, não importa o quanto a depressão me maltrate, não importam as crises de ansiedade sem motivo, eu vou me curar sozinho ou deixar ser destruído sozinho.


As pessoas têm tempo de sobra para julgar um depressivo, para dizer o que deve ou não fazer, mas nunca têm dez minutos para ouvir sem julgar ou para convidar para um passeio simples.
Quantas vezes eu morri dentro do meu quarto e ninguém percebeu? Quantas vezes eu pensei em tirar a minha própria vida e eu mesmo me amparei até chegar o outro dia? Quantas vezes eu chorei em silêncio, engoli palavras que me destruíram por dentro, calado, e tive que ser meu próprio refúgio?


Eu estou cansado. Cansado das pessoas me julgando como se a escolha fosse minha. Cansado de não ter ninguém para um simples abraço e ter mais de dez para apontar meus defeitos. Cansado de ter meus sentimentos invalidados, como se eu tivesse que engolir a vida e as pessoas sem direito a nenhuma defesa.


Estou cansado de ser um peso na vida das pessoas, mesmo quase nunca falando sobre o que sinto, porque ninguém quer ouvir.
Estou cansado de não poder escrever o que sinto porque estou me expondo demais.
Estou cansado de tudo e todos dizerem como devo agir e o que devo fazer, como se eu não estivesse doente. Como se eu tivesse escolha e controlasse minhas emoções e os efeitos colaterais de cada decisão que eu tomo ou que tomam por mim.


Estou cansado de rezar e não obter resposta. Estou cansado de olhar ao meu redor e sentir que nada mais faz sentido.


Estou deixando este ano ir embora, junto com as poucas pessoas com quem eu mantinha algum contato. Posso falar que, se Deus quis esfregar na minha cara o quanto eu sou sozinho, este ano eu tive a resposta.
Eu não tenho família, não tenho amigos e, no fim, não tenho nem a mim mesmo. Tudo o que restou dessa pobre alma foi a certeza de que a vida acabou muito antes da minha morte.

Inacessível.

Acho que 2025 foi um dos anos mais desafiadores da minha vida. Não apenas porque o quadro de depressão se agravou, mas porque senti, na pele, o quanto eu sou um nada na vida das pessoas.


Hoje escutei coisas horríveis — e muitas delas eu sei que são verdade. Ouvir o quanto as pessoas não me aguentam mais. O quanto sou visto como um ser humano desprezível por ter depressão, por deixar transparecer que não estou bem. Ouvi que todos estão com raiva de mim simplesmente porque eu não consigo estar bem.
E isso só confirmou uma certeza antiga: sempre estive sozinho. E, não importa o que eu faça, sempre será assim.


O pior de tudo é ter minhas vulnerabilidades lançadas contra mim como armas. Ser tratado como desprezível por querer existir do meu jeito, por ser quem eu sou, por ser um homem trans.


Hoje tive a certeza de que fui abandonado pelas pessoas — e por Deus — desde o momento em que nasci. E pensar que, nos últimos meses, eu ainda me agarrava a uma fé, a uma esperança que, no fundo, nunca passaram de ilusão.
Eu não sou nada. Minha dor não comove; provoca repulsa. Não posso demonstrar o que sinto, tampouco pedir ajuda. Até porque, pedir ajuda a quem, quando não se tem nada?


Acho que só não acabo com todo o meu sofrimento por covardia. Ou talvez pelo desejo de simplesmente desaparecer no mundo, sumir do contato humano, apagar-me aos poucos.
Ninguém merece meus sentimentos, minhas fraquezas, meu jeito intenso de sentir. Ninguém merece o que se esconde na minha mente, no meu coração, nem essas lágrimas contidas enquanto escrevo.


Não sei por quanto tempo ainda suportarei viver em um mundo que me odeia por sentir e falar — e me odeia do mesmo jeito por sentir e permanecer calado. No fundo, o que importa é odiar tudo aquilo que eu sou e tudo o que represento.


Minhas lutas não importam. Minhas dores não importam. Nada do que diz respeito à pessoa que eu sou importa.
Posso desativar todas as minhas redes sociais, desaparecer dos olhos e do convívio de todos — e isso não fará a menor diferença. Ninguém pergunta se estou bem. Ninguém oferece um abraço.


Sabem apenas apontar o dedo e repetir que sou a pior pessoa do mundo pelo simples fato de existir sendo eu.
Hoje tomei a decisão de me tornar inacessível. Não apenas às pessoas, mas também ao que havia de mais nobre dentro de mim.
Quem sabe assim, morrendo aos poucos, tudo finalmente acabe — e eu nem perceba.

Sistema!

Eu estou tentando viver com um corpo que sente demais num mundo que sente pouco — e isso exige inteligência, não mais força, e eu não tenho nenhum dos dois.
Eu estou no meu limite, vejo a vida passando depressa diante dos meus olhos, mas me sinto estagnado no mesmo lugar. Eu sinto minha falta. Falta das coisas que eu gostava, mas, na verdade, eu nem lembro mais de quem eu era, do que gostava ou do que me fazia feliz.
Isso parece tão vago, mas sinto que me perdi em algum momento que não sei dizer exatamente qual, e acabei me tornando algo que nem sei explicar exatamente o que é, mas esse não é aquele que eu sonhava em ser quando criança.
Sinto que cheguei cedo demais em um mundo que não me enxerga — e acho que nunca será capaz de me enxergar.
Eu me escuto, me cuido e me acolho, enquanto tudo ao meu redor me destrói. Não sei até quando serei capaz de suportar as dores da solidão, mesmo tentando ser forte o tempo todo.
Às vezes, me pego pensando em todas as vezes que não me escolhi, e por isso acabei destruindo cada pedaço de bom que eu tinha. Mesmo ainda sendo minha própria casa, não me sinto mais o mesmo.
Eu gostaria de escrever algo que não fosse triste, mas eu estaria me traindo outra vez. Será que eu não posso ser a criança que chora sem ser julgada, mesmo tendo mais de trinta anos? Ou, quando crescemos, deixamos morrer até os sentimentos que temos guardados em uma caixa, porque adulto não pode demonstrar fraqueza, ou a vida acaba passando por cima? Mas a vida já acaba fazendo isso de qualquer maneira, não é mesmo?
Acho que eu sou a única pessoa que não consegue se manter feliz durante mais de dez minutos. Minha tristeza é crônica, assim como o vazio no meu peito.
Uma vez eu li que, para ser poeta, você precisa ser triste, e, se isso for verdade, acho que acabei levando à risca demais.
Eu queria que a vida passasse depressa para que tudo acabasse logo, mas vê-la passando diante dos meus olhos tão rápido e não ter vivido é o que mais me dói. Sobreviver não é viver, ainda mais quando seus sonhos mais simples morrem sem nunca ter saído do papel.
Eu não preciso vencer o sistema. Eu preciso não morrer dentro dele.

VILÃO!

Serei eu sempre o erro da história?
O vilão das minhas próprias dores?
Serei eternamente responsabilizado pelo que sinto quando é o outro quem me fere?

Sinto-me perdido. O vazio já se instalou como moradia, e a vida parece ter se ausentado sem aviso. A cada dia, a solidão se adensa, e não condeno os que partiram — há tempos desejo partir de mim também.

Não são apenas os outros que me apontam o dedo; sou eu quem mais acusa. Eu me julgo, me condeno e me puno em silêncio. Tudo o que faço parece insuficiente, errado, falho — aos olhos dos outros, aos meus próprios olhos, até diante de Deus.

Eu só queria falar sem ser sentenciado. Queria que alguém permanecesse em silêncio ou me ouvisse por dez minutos sem enumerar minhas falhas. Eu sei que sou imperfeito, erro comigo o tempo inteiro, mas quando o outro falha, eu não tenho o direito de sentir? Não me é permitido chorar?

Parece que fui condenado a engolir sentimentos, angústias e dores a seco, sem direito à voz. Não posso ser vítima; estou destinado ao papel de culpado. Culpado pelas minhas escolhas, pelas minhas atitudes e, cruelmente, até pelas atitudes alheias.

Estou exausto de ser o vilão da minha própria vida e o herói dos erros dos outros.

O vazio dentro do quarto…



Eu queria ter esperança, mas parece que a vida nunca vai sorrir pra mim. Sabe aquele sentimento de que, não importa o que você faça, nunca será o suficiente? Acho que isso resume esse vazio que sinto. Todos os meus planos são frustrados; eu não consigo colocar nada em prática, porque até respirar eu faço porque é automático.

Essa semana escutei uma das maiores verdades que já ouvi na vida: as pessoas têm repulsa de quem tem depressão. Estar morto mesmo vivo causa o rancor das pessoas. Ninguém ama um depressivo. As pessoas se afastam, se vão, somem… Na verdade, elas nunca foram presentes e só queriam mais um pretexto para ir embora.

Acho que a pior luta na cabeça de um depressivo é isso: não saber se ele se odeia mais do que os outros o odeiam. Tudo vira um pandemônio dentro da cabeça: você não vive, mas também não consegue morrer totalmente. O fim seria acabar com o sofrimento, realmente? Ou será sempre um círculo vicioso de viver a solidão e ter poucos momentos?

Lidar com os próprios demônios é difícil quando sua cabeça não te deixa em silêncio. Principalmente quando sua cabeça fala demais, mas ao seu redor tudo é vazio, sem vida, sem pessoas.

Às vezes eu me pego pensando em todas as pessoas que foram embora e concordo com elas. Se até eu quero ir embora de mim, quem dirá os outros.

Eu já apelei para a fé, para os hobbies, para o completo nada o dia inteiro. Nada adiantou. Já pensei na morte, mas não tive coragem. Já pensei na vida, mas também me falta coragem para viver.

Quantas versões minhas morrem dentro do meu quarto, enquanto eu me deixo cansar pelo silêncio absoluto? Quantas vezes eu quis gritar, chorar, falar, fazer qualquer coisa que demonstrasse alguma emoção e simplesmente fui dormir…

Eu sinto o furacão dentro de mim se formando e destruindo cada pedaço que um dia eu acreditei que seria bom. No fim, eu nunca fui bom em nada.

Analisando a minha vida inteira e cada pessoa que passou por ela, eu só consigo lembrar das palavras que me destruíram ou me fizeram me tornar o que sou hoje. Eu não consigo mais lembrar de ninguém com carinho e amor, porque no meio do caminho eu não tive isso. Será que as pessoas me amariam se me conhecessem? Ou não me amam justamente porque me conhecem? Mas, se nem eu me conheço, será que o pouco que demonstro é raso demais para ser eterno, e o muito que escondo é machucado demais para encontrar motivos para aparecer?

Eu não consigo mais pensar na vida sem pensar na morte. Assim como não consigo mais ter fé nem esperança em dias melhores. Parece que tudo acabou antes mesmo de acabar, e o pouco que restou foi me deixando para trás até não sobrar mais nada. Eu, que quis ser livre, fui aprisionado nos meus próprios medos e me deixei sucumbir sem saber o que é liberdade, mesmo nos momentos de solidão.

9 de Dezembro!



Cheguei em casa e me deparei com essa imagem. Fiquei encarando ela enquanto arrumava minhas coisas como um fugitivo. Não, eu não vou fugir de casa, porque aqui não é meu lar… E sim, eu iria tentar tirar minha vida pela segunda vez, e dessa vez não iria voltar.
Hoje é um daqueles dias em que eu não queria existir, assim como todos os outros dias — só que pior. Mais uma vez por causa das idealizações dos outros. Mais uma vez as pessoas me perseguem pelo que eu sou, como se ser trans fosse a pior coisa do mundo.
Eu não tenho ninguém, e mesmo assim não consigo acabar com minha agonia.
Hoje três pessoas me impediram de estar do outro lado agora: minha psicóloga, meu psiquiatra e minha prima. Todas as outras pessoas não fazem ideia do que se passa, ou fazem e não se importam, ou têm os próprios problemas e não querem mais um.
Eu sou sempre um problema. Mas não um problema que incomoda; eu sou o problema que as pessoas querem esquecer que já existiu.
Eu nunca me senti tão sozinho como agora. Hoje eu tive mais pensamentos do que todos os outros dias dos meus trinta e um anos de vida, e a coisa mais sensata que pensei — que resume tudo — é: eu queria viver pelo menos um dia como um homem cis hétero na sua adolescência ou início da juventude, que eu seria mais feliz do que em todos os anos dessa minha miserável vida.
Vocês não sabem como é se sentir vazio, sentir que você nunca é você e que até quando você é você parece que está errado. Eu nunca encontrei amor, eu nunca me senti amado… Eu nunca olhei ao meu redor e enxerguei o arco-íris do mundo. Todos os meus sonhos de infância eu não consegui realizar, por mais simples que fossem. Meu quarto cheio de carros e livros, praticar todos os esportes, chegar em todas as meninas de quem eu gostasse, sair para beber sem medo de ser eu, sair sem camisa na rua e sentir a brisa bater no meu peito. Eu nunca consegui ser o menino nem o homem que eu sonhei ser. Eles choram aqui dentro de mim, porque mesmo quando ele saiu, não foi o suficiente para encontrar a felicidade.
Eu sempre achei que minha alma fosse livre e que foi aprisionada no preconceito e no medo. Mas se eu fosse realmente livre, eu nunca teria deixado de voar. Eu não deixaria ninguém cortar minhas asas como um covarde. Um covarde que não tem coragem nem de dar fim às próprias dores.
Eu queria acreditar que amanhã eu fosse acordar e orgulhar o menino e o homem que vivem gritando dentro do meu peito, mas a verdade é que eu não consigo acreditar nem na minha própria capacidade; eu não sou capaz nem de fazer valer a minha existência.
Talvez eu tenha nascido para ser sempre esse “quase” por ser covarde e não enfrentar de peito aberto esse mundo preconceituoso e cruel, porque por mais que eu levante a bandeira trans, tome meus hormônios, faça todos os acompanhamentos médicos, saia na rua com roupa masculina, tenha barba e o cabelo cortado… Apesar disso, eu sou covarde por deixar que o que os outros acham, falam e apontam me abale. Como se isso definisse quem eu sou, pelo simples fato de eu ser um homem que não nasceu no padrão dessa sociedade doentia.

Domingo!

Desde que a depressão se adensou dentro de mim, a solidão deixou de ser uma visita e passou a morar no meu peito. Tornei-me ainda mais solitário do que já era.
Eu, que sempre contei nos dedos os poucos amigos que tinha, vi essa palavra — amigos — desmanchar-se, reduzida ao pó que o vento leva sem perceber.

Falo pouco ao longo do dia; às vezes, quase nada. Minha única válvula de escape são as consultas com minha psicóloga e meu psiquiatra. São eles que me escutam — ainda que seja parte do ofício deles — e, mesmo assim, parecem ser as únicas vozes que conseguem atravessar o silêncio que me cerca.

É duro compreender que, para tantas pessoas, eu simplesmente não faço falta. Não o suficiente para que se lembrem da minha existência. Eu sei que cada um carrega suas próprias batalhas, suas dores, seus pequenos mundos… mas, ainda assim, será que ninguém tem dez minutos para perguntar como eu estou? Para me ouvir de verdade?

Sinto-me perdido. Perco-me porque já não enxergo saída para as minhas dores. Não é dor física — é uma dor que se instala na alma, que aperta o coração, que ecoa onde ninguém vê.
A cada nova manhã de solidão, me pego questionando a própria vida. Como a criança que não entende por que não pode brincar, eu me pergunto por que a vida escolheu ser tão cruel comigo.

A solidão e o silêncio deixaram de ser passageiros; tornaram-se parte da minha identidade, como se eu tivesse sido moldado por eles. Pedi ajuda tantas vezes que, em algum ponto, percebi que ninguém se importa realmente se eu fico ou se desapareço.

Talvez eu ainda esteja aqui por covardia — ou talvez por causa daquela pequena porção de esperança que insiste em sobreviver dentro de mim. Ela respira fraca, quase apagada, mas ainda teima em existir, mesmo quando tudo parece me empurrar para o fim da linha.

Viver é diferente de estar vivo.

No momento em que mais precisamos de acolhimento, é também o momento em que mais ficamos sozinhos.
O mundo inteiro grita lá fora, enquanto o silêncio toma conta do vazio dentro do meu quarto e do meu coração. Viver é diferente de estar vivo, principalmente quando tudo dentro de você morreu.
Os sentimentos se misturam; você não sabe mais o que é tristeza e o que é raiva. Eu deveria gritar e chorar, mas mal consigo me manter respirando.
Todas as pessoas no mundo me abandonaram, e sinto que Deus também.
Hoje, todas as tentativas que eu tive de resolver a minha vida não deram certo, assim como todas as outras tentativas desde quando nasci.
Às vezes, me questiono se eu sou uma pessoa ruim ou se é somente falta de sorte de alguém que nunca teve nada, e que, por não ter nada, se tornou insignificante.
Eu olho ao meu redor e não consigo mais enxergar saída, porque não consigo enxergar amor em nada. Talvez eu só precisasse ser abraçado, mas não tenho ninguém nem para conversar — imagina para me demonstrar afeto.
Hoje foi mais um dia em que eu pensei em desistir e resolvi escrever, como alguém que busca refúgio nas palavras porque não consegue encontrar nas pessoas.
Estou cansado, mesmo não fazendo nada o dia inteiro. Esse cansaço é o da existência sem propósito, da vida sem cor, do silêncio da solidão, do vazio da vida. Esse cansaço é aquele contra o qual eu luto todos os dias para que ele não me vença e eu possa acordar amanhã.

Aryan Felipe

INÉRCIA

Aos poucos vou vendo minha vida passando e as coisas parecem não ter solução. Me sinto pela metade, mesmo nunca ter me sentido inteiro em alguma coisa.
A angústia já faz morada no meu peito como se tudo estivesse fora do eixo mesmo antes de eu existir.


Como pode um ser só carregar tantos fardos? Sinto que a vida não tem conserto, e que eu sou o maior dos pecados. Nada mais tem solução.
Hoje eu me sinto solitário, mas quando foi que não estive assim? Hoje me sinto sem vontade de viver, mas quando foi que não me senti assim? Não foi os problemas ou as pessoas que me moldaram, foi o destino que me mostrou que não importa o que eu faça tudo sempre se resume a nada.


Não sinto mais vontade de viver, não apenas pela solidão e pela falta de dinheiro. Sinto essa vontade de ir embora por quê não pertenço a nada das coisas ao meu redor. Sinto falta de mim, mas não de quem eu sou hoje, sinto falta da criança que eu fui que tinha esperança em ser alguém no futuro. O futuro chegou e me descobri um grande nada. Não sei quanto tempo vou suportar enquanto meu peito e minha cabeça grita, por algo que não consigo expressar em nenhuma circunstância.
A inércia me ganhou, e de tempos em tempos chego a conclusão que o nada é a única coisa que preenche o vazio que se tornou a minha vida.

Solidão!

Como não me abandonar quando todas as outras pessoas já me abandonaram? Como não sucumbir ao fim quando não resta mais esperança dentro do peito?

Hoje eu me vejo mais solitário do que nunca. Parece que o mundo já acabou há muito tempo e eu só esqueci de parar de respirar. Nada mais faz sentido — é como se o automático estivesse ligado na aceleração máxima, indo de encontro ao fim.

Eu não posso mais pedir ajuda. Eu não posso mais gritar. Eu não posso mais fingir que vai ficar tudo bem quando eu sei que não vai.

Toda vez que eu olho ao meu redor, mais solitário eu me sinto. As pessoas foram me deixando e me esquecendo, foram indo embora uma por uma, e aqui estou eu no caos da solidão. Não sei mais o que sinto; desistir já deixou de ser opção e virou a única saída. Só me resta a coragem — ou a falta dela.

Nós não fomos criados para a solidão. Então, por que a minha vida inteira se resume a isso? Por que as pessoas vão embora da minha vida sem pensar duas vezes? Por que passei mais de trinta anos indo atrás de um afeto que me foi negado desde que me entendo por gente? Talvez a culpa seja minha. Uns têm amor de sobra, outros têm mais dores do que conseguem suportar… Talvez eu mereça carregar o fardo de viver sozinho para já estar acostumado com a morte. Nada disso deveria me afetar — então por que me afeta? Por que eu sinto falta de algo que não consigo ter?

Estou cansado de sofrer em silêncio todos os dias da minha vida, enquanto o mundo gira ao meu redor. Todo mundo tem alguém, menos eu. Não tenho amigos, não tenho família, não tenho amores; se brincar, não tenho nem a mim mesmo. Já me perguntei o que há de errado comigo. Já rezei, implorei para receber pelo menos migalhas de afeto — e tudo foi em vão. É como se eu não existisse para o mundo… E, de tanto não existir para o mundo e para as pessoas, talvez logo eu deixe de existir de verdade, assim como o vazio dentro de mim insiste em dizer que não existe mais razão quando não existe propósito.