Mais um dia vazio, não somente na casa, mas em mim. Eu ainda não assimilei a maioria das coisas que escutei, por isso não sinto nada. Nem raiva, nem tristeza, nem rancor.
As pessoas estão com raiva de mim porque eu falei que sou sozinho e que não tenho ninguém. Mas o engraçado é que, quando mando mensagem, por mais besta que for, ninguém me responde. E, se eu não mando mensagem, não recebo nenhuma de ninguém. Se isso não é solidão, então o que é?
A única maneira que encontrei de me expressar foi escrevendo, e até isso foi invalidado, porque eu estava sempre falando o quanto sou sozinho, e isso estava magoando as pessoas. Mas pergunta se elas me mandaram mensagem? Ou, quando mandei, alguma respondeu? A resposta é não.
Parece que tudo o que faço é errado. Se peço ajuda, estou me vitimizando; se não peço, estou escolhendo ser solitário. Não importa o que eu faça, as minhas atitudes sempre são julgadas.
Não basta a minha mente me maltratando, não basta o vazio me maltratando; as pessoas insistem em foder o fodido.
As pessoas não têm ideia do que é lidar com a depressão. Se tivessem, teriam mais empatia e menos julgamentos.
Eu não posso falar que sou solitário, mesmo olhando à minha volta e não tendo ninguém. Mesmo pegando meu celular de cinco em cinco minutos e não tendo nenhuma mensagem. Mesmo pedindo socorro e acolhimento de todas as formas, e as pessoas acham que se trata de uma ajuda financeira ou algo do tipo. Mas a amizade, o acolhimento, o abraço, o “você está bem”, ficam aonde?
Hoje eu decidi que, assim como nasci sozinho, vou morrer sozinho. Que não importa o que eu sinta, não importa o quanto a depressão me maltrate, não importam as crises de ansiedade sem motivo, eu vou me curar sozinho ou deixar ser destruído sozinho.
As pessoas têm tempo de sobra para julgar um depressivo, para dizer o que deve ou não fazer, mas nunca têm dez minutos para ouvir sem julgar ou para convidar para um passeio simples.
Quantas vezes eu morri dentro do meu quarto e ninguém percebeu? Quantas vezes eu pensei em tirar a minha própria vida e eu mesmo me amparei até chegar o outro dia? Quantas vezes eu chorei em silêncio, engoli palavras que me destruíram por dentro, calado, e tive que ser meu próprio refúgio?
Eu estou cansado. Cansado das pessoas me julgando como se a escolha fosse minha. Cansado de não ter ninguém para um simples abraço e ter mais de dez para apontar meus defeitos. Cansado de ter meus sentimentos invalidados, como se eu tivesse que engolir a vida e as pessoas sem direito a nenhuma defesa.
Estou cansado de ser um peso na vida das pessoas, mesmo quase nunca falando sobre o que sinto, porque ninguém quer ouvir.
Estou cansado de não poder escrever o que sinto porque estou me expondo demais.
Estou cansado de tudo e todos dizerem como devo agir e o que devo fazer, como se eu não estivesse doente. Como se eu tivesse escolha e controlasse minhas emoções e os efeitos colaterais de cada decisão que eu tomo ou que tomam por mim.
Estou cansado de rezar e não obter resposta. Estou cansado de olhar ao meu redor e sentir que nada mais faz sentido.
Estou deixando este ano ir embora, junto com as poucas pessoas com quem eu mantinha algum contato. Posso falar que, se Deus quis esfregar na minha cara o quanto eu sou sozinho, este ano eu tive a resposta.
Eu não tenho família, não tenho amigos e, no fim, não tenho nem a mim mesmo. Tudo o que restou dessa pobre alma foi a certeza de que a vida acabou muito antes da minha morte.